quinta-feira, 24 de maio de 2018

Hikikomori, está a crescer: milhares de jovens em autorreclusão em casa

Photo by Steinar Engeland on Unsplash


Artigo publicado no site da RevistaIHU on-line, de 20 de fevereiro de 2018.

Eles estão entre os 14 e 25 anos e não estudam nem trabalham. Não têm amigos e passam a maior parte do dia em seus quartos. Dificilmente falam com os pais e parentes. Eles dormem durante o dia e vivem à noite para evitar qualquer confronto com o mundo exterior. Eles se refugiam nos meandros da Web e das redes sociais com perfis falsos, único contato com a sociedade que abandonaram. São chamados de hikikomori, palavra japonesa para "ficar de lado". Na Terra do Sol Nascente já atingiram a cifra alarmante de um milhão de casos, mas é equivocado considerá-lo um fenômeno limitado apenas às fronteiras japonesas.
A reportagem é de Matteo Zorzoli, publicada por Business Insider Itália, 15-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.
"É um mal que assola todas as economias desenvolvidas - explica Marco Crepaldi, fundador do hikikomori Itália, a primeira associação nacional de informação e apoio sobre o tema. - As expectativas de interação social são uma espada de Dâmocles para todas as novas gerações do século XXI: há aqueles que conseguem suportar a pressão da competição na escola e no trabalho e aqueles que, em vez disso, largam tudo e decidem se autoexcluir".
As últimas estimativas falam de milhares de casos italianos de hikikomori, um exército de presos que pede ajuda. Um número que tende a aumentar se não conseguirmos dar ao fenômeno uma clara posição clínica e social.

Um fenômeno de contornos ainda pouco claros

Associações como a Hikikomori Itália já há anos estão fazendo todo o possível para sensibilizar a opinião pública sobre um desconforto que é muitas vezes confundido com incapacidade e falta de iniciativa das novas gerações. Um equívoco que encontrou terreno fértil no debate político, legislatura após legislatura, criando estereótipos como "bamboccioni" (adulto com comportamento infantil e mimado, ndt) , um termo cunhado em 2007 pelo então ministro da Economia, Tommaso Padoa-Schioppa, ou "jovens italianos choosy" (exigentes) da ex-ministra do trabalho, Elsa Fornero, até chegar ao limite da sigla Neet, (em português, são os chamados “nem-nem”, ndt) os jovens que não têm "nem trabalho nem estudo", que de acordo com uma pesquisa da Universidade Católica de 2017 seriam cerca de 2 milhões em todo o país.
Também do ponto de vista médico, o hikikomori sofre de uma classificação nebulosa. No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a "Bíblia" da psiquiatria, ainda está registrada como síndrome cultural japonesa: uma imprecisão que tende a subestimar a ameaça do distúrbio no resto do mundo e cria consequências perigosas.
"Muitas vezes é confundido com síndromes depressivas e, nos piores casos o jovem é carimbado com o rótulo de dependência em internet - explica Crepaldi - Um diagnóstico desse tipo geralmente leva ao afastamento forçado de qualquer dispositivo eletrônico, eliminando, dessa forma, a única fonte de comunicação com o mundo exterior para o doente: uma verdadeira condenação para um garoto hikikomori".

Como alguém se torna um hikikomori?

O ambiente escolar é um lugar vivenciado com sofrimento especial pelos hikikomoris, não surpreendentemente a maioria deles se inclina ao isolamento forçado durante seus anos finais do ciclo fundamental e durante o ensino médio. É neste período que geralmente ocorre o 'fator precipitante', que é o evento-chave que inicia o movimento gradual de afastamento dos amigos e familiares. Pode ser um episódio de bullying ou uma nota ruim na escola, por exemplo.
"Um evento inofensivo aos olhos de outras pessoas, mas contextualizado dentro de um quadro psicológico frágil e vulnerável, assume uma importância muito significativa - explica Crepaldi - É a primeira fase do hikikomori: o garoto começa a faltar dias de aula usando qualquer desculpa, abandona todos as atividades esportivas, inverte o ciclo vigília-sono e se dedica a compromissos monótonos solitários como o consumismo desenfreado das séries de TV e videogames".
É importante intervir exatamente nesse primeiro estágio do distúrbio quando se manifestam os primeiros sinais de alarme. Nessa fase, os pais e os professores desempenham um papel crucial na prevenção: investigar a fundo as motivações íntimas do desconforto e, se necessário, buscar rapidamente o apoio de um profissional externo para evitar a transição para uma fase mais crítica, quando seria necessária uma intervenção que poderia durar até anos.

Itália e Japão: duas faces da mesma moeda

É inegável que a cultura japonesa historicamente tem se caracterizado por uma série de fatores que aumentam a dimensão do fenômeno, a ponto se ser já possível se falar de duas gerações de hikikomori, a primeira desenvolvida na década de 1980. O sistema social e escolar extremamente competitivo e o papel da figura paterna muitas vezes ausente por causa de horários de trabalho extenuantes estão na base das expectativas opressivas e muitas vezes não concretizadas. Mesmo considerando as devidas proporções, mesmo na Itália as pressões sociais são muito fortes. Determinantes desde os primeiros casos de hikikomoris diagnosticados em 2007, são a diminuição dos nascimentos com o consequente aumento de filhos únicos, geralmente submetidos a pressões maiores, a crise econômica que torna muito distante o ingresso (real) no mercado de trabalho e a explosão de cultura da imagem, exacerbada pela disseminação capilar das redes sociais.
Na Itália a síndrome não afeta só os homens, como no Japão, mas inclui também um discreto número de hikikomori-mulheres, com uma proporção de 70 para 30. "Por uma questão cultural as famílias consideram, no entanto, a reclusão da filha como um problema menor - diz Crepaldi - provavelmente porque a veem como uma futura dona de casa ou esperam que um dia se case e saia de casa".
No contexto italiano, aliás, existem diferenças entre uma região e outra: os hikikomoris do norte da Itália têm, de fato, características diferentes daqueles do sul. Justamente por isso, o site Hikikomori Itália disponibiliza salas de chat regionais, onde os jovens podem discutir problemas com os seus conterrâneos que sofrem da mesma síndrome.
Existe apenas uma regra dentro do chat: quem entra não é obrigado a interagir, mas é apreciada uma breve apresentação. Aqueles que não a respeitam são "bloqueados". Para aqueles que querem contar a sua história também tem um Fórum, aberto tantos aos jovens como aos pais: um mundo paralelo, silencioso, impalpável.
Uma tela de pedidos de ajuda e de sofrimento, mas também histórias de sucesso. Como a de Luca, 25 anos:
"O dia e noite eram idênticos, eu dormia quando sentia vontade, comia quando queria. Eu perdi todos os meus amigos e a tela era um "Stargate" para outro universo. O tempo se dilatava quando eu clicava no teclado e eu nunca queria parar. Quando precisava tomar banho ficava ansioso debaixo do chuveiro para voltar logo a jogar.
Eu passei mais de dois anos jogando Wow [World of Warcraft, um jogo de estratégia, nde] em total isolamento. Eu não conseguia mais nem andar. Tudo isso aconteceu sem que minha mãe percebesse: trabalhava das 8 às 17 e eu fingia que ia à escola. Eu já não queria mais ir. Muita pressão.
O isolamento é uma batalha que no final torna-se uma cura. Crescia dentro de mim como uma onda, lentamente, até o momento em que tudo começou a me incomodar, eu detestava tudo o que eu fazia, eu não suportava mais quem eu era.
Hoje eu estou fora, eu moro no exterior e tenho uma linda namorada. Sou ou fui um hikikomori? Eu não sei, mas o que eu sei é que a força para combater esse demônio está e existe apenas dentro de você, ninguém pode ajudá-lo, na taberna de alguma montanha virtual onde você se perdeu, com a sensação de paz que envolve a sua mente. O único conselho que acho que posso deixar é: fujam do computador".

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Centro de Documentação do IAC convida-@ a ir à Feira do Livro de Lisboa conhecer a Premika

O Centro de Documentação e Informação sobre a Criança do Instituto de Apoio à Criança convida a vir conhecer a Premika, e as suas autoras, na Feira do Livro de Lisboa, no dia 27 de maio, às 15.00h.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Consequências de andar pelas redes sociais no telemóvel à noite mais graves do que se pensava

Photo by Rami Al-zayat on Unsplash


Artigo de Mariana Godinho para a Visão, em 20 de maio de 2018. 

Um estudo da Universidade de Glasgow chegou à conclusão que tudo o que interrompa o normal ritmo circadiano aumenta a probabilidade de instabilidade emocional, depressão e até bipolaridade. A partir das 22h00, esqueça o telemóvel. 

Investigadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, chegaram à conclusão de que quem fica agarrado ao telemóvel até tarde tem mais 11% de probabilidade de sofrer de bipolaridade e mais 6% de probabilidade de passar por uma depressão. 

Os participantes deste estudo, que foi o primeiro a analisar em larga escala as a interrupção do normal funcionamento do relógio biológico, também demonstraram níveis de felicidade reduzidos e, pelo contrário, e altos níveis de solidão. 

Foram estudadas mais de 91 mil pessoas entre os 37 e os 73 anos e monitorizadas durante sete dias por acelerómetros de pulso para medir o ritmo circadiano (responsável pelo relógio biológico que controla o sono e o apetite) e perceber o que o perturba. 

 À diferença dos ritmos de atividade e descanso chama-se amplitude relativa e a equipa de Glasgow concluiu que os indivíduos com menor amplitude relativa eram os que tinham maior risco de problemas de saúde mental, mesmo depois de tidos em conta fatores como a idade, sexo, estilo de vida, educação e traumas de infância. 

Daniel Smith, o principal autor do estudo, especifica, em declarações ao The Times, o uso do telemóvel até tarde e o acordar de madrugada para fazer chá como hábitos que contribuem para uma "má higiene do sono". "Mas não é apenas o que faz à noite, é o que faz durante o dia - tentar ser ativo durante o dia e passivo à noite", defende. O inverno é a altura a que Smith dá mais enfase, explicando que é tão importante "sair de casa pelo ar fresco da manhã" como "não estar no telemóvel para ter uma boa noite de sono". O investigador garante que 10 horas da noite é uma boa altura para pôr o telemóvel de lado. 

Como cada vez mais pessoas estão a viver em ambientes urbanos, o que aumenta o risco de perturbações no ritmo circadiano, Daniel Smith explica que "o próximo passo será identificar os mecanismos pelos quais as causas genéticas e ambientais da perturbação circadiana interagem para aumentar o risco individual de depressão e bipolaridade."

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Professores e alunos devem ser amigos nas redes sociais?

REUTERS

Artigo de Joana Capucho para o jornal Público, em 1 de maio de 2018.


Há professores com alunos amigos no Facebook. Psicólogos, pais e diretores alertam para risco ético

"Os estudantes são muito dependentes do telemóvel. Por isso, as redes sociais podem ser úteis como instrumento de trabalho. Nunca tive nenhum problema." Filipe Carvalho, professor de Educação Física, de 40 anos, usa o WhatsApp para comunicar com os alunos da sua direção de turma, bem como com a equipa do Desporto Escolar. "Tenho quase todos os alunos no Facebook. Começámos por comunicar num grupo fechado, mas eles agora aderem mais ao WhatsApp", conta ao DN.

Na rede criada por Mark Zuckerberg, o professor, a dar aulas no ensino secundário em Elvas, não publica nada que lhe "possa trazer desvantagens caso os alunos vejam". Pelo contrário, faz "publicações relacionadas com o desporto, precisamente para que vejam e se motivem". Já na aplicação de troca de mensagens, alerta para coisas importantes como datas de exames, alterações de salas ou reuniões com os pais. "A informação circula mais facilmente", explica.

Esta é uma questão que foi recentemente abordada por Alexandre Henriques, professor, pai e autor do blogue Com Regras. "Quando publiquei o artigo sobre o tema ["Devem os professores ter alunos no seu Facebook?"], percebi que a maioria dos professores não abre a porta da sua "casa". Tem de haver um certo resguardo. Mas há quem contacte os alunos por WhatsApp, por exemplo." No seu caso, adianta, só estabelece amizade com ex-alunos. Vê como principais perigos o contacto pós-laboral, questões sobre as notas e deturpações das partilhas ou comentários dos docentes.


Na opinião de Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, a conexão nas redes sociais "não acrescenta nada à relação professor-aluno". É algo que não recomenda, contudo, sublinha, "é uma questão que deve ficar ao critério da consciência de cada professor". Caso este considere que há benefícios, "deve usar da equidade no tratamento, ou seja, aceitar os pedidos de todos os alunos".

"Não é uma ideia muito feliz"

Admitindo que pode ser "conservador" e que nunca pensou muito sobre o assunto, Rui Canário, especialista em ciências da educação, diz que não é "absolutamente contra" a relação de amizade entre professores e alunos no Facebook, mas atendendo "ao papel dos professores e às pinças com que é preciso lidar com a utilização das redes sociais," não considera "que seja uma ideia muito feliz".

Ao DN, o professor aposentado explica que os docentes "devem manter uma certa reserva, não na utilização das redes sociais mas na relação direta com os alunos". Isto permite, segundo o mesmo, "que o professor tenha uma atitude mais interventiva para ajudar os alunos a lidarem com sensatez com as redes sociais". Defende, ainda, que não se devem relacionar como se estivessem no mesmo patamar.

Cuidado e cautela são também palavras-chave para os pais. "O professor tem de avaliar com cuidado esse tipo de amizades. Nada o proíbe, mas é preciso cuidado com o que se publica nas redes sociais", diz Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais. Na opinião do representante, "não é nada aconselhável usar esses meios para fazer comunicações".

Já Fátima Pinho, presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Básico e Secundário, considera que "a "amizade" entre professores e alunos nas redes sociais é tão válida como a amizade existente em contexto escolar". Destaca que há uma "facilidade na comunicação", mas reconhece que pode levar "a uma diferenciação no tratamento/respeito dos alunos pelos professores e vice-versa".

Embora só tenha no Facebook ex-alunos, Alexandre Henriques reconhece que as redes sociais também podem ter benefícios na relação com os mais jovens: "Se os professores estiverem mais próximos, leva a uma maior afinidade e empatia, o que é salutar para o processo de aprendizagem."

São cadas vez mais novas as crianças cuja felicidade depende do número de "gostos" nas redes sociais

DR



Artigo de Cátia Leitão para a Visão, em 4 de Janeiro de 2018

Novo estudo realizado no Reino Unido sugere que as crianças entre os 8 e os 12 anos estão a tornar-se viciadas nas redes sociais e que os 'gostos' no Facebook e Instagram funcionam como uma validação social para elas.

Entre outubro e novembro, Anne Longfield, comissária das crianças em Inglaterra, desenvolveu uma pesquisa com o objetivo de perceber o impacto que as redes sociais têm atualmente no bem-estar de uma criança entre os 8 e os 12 anos, especialmente no que diz respeito à autoestima. Esta investigação analisou 8 grupos com 32 crianças e concluíu que apesar da idade mínima para um indivíduo se registar numa rede social ser de 13 anos, há um número cada vez maior de crianças com menos de 12 anos que já têm uma conta própria e que procuram aprovação social através dos 'gostos'.

Esta investigação foi realizada com base em entrevistas feitas às crianças. Para que estas se sentissem à vontade e mais disponíveis para responder às perguntas colocadas, os investigadores juntaram todas as crianças em pares com alguém que estas já conhecessem, como por exemplo um amigo ou colega de escola. Mas antes disso, tanto as crianças como os respetivos pais teriam de completar um conjunto de tarefas para que os autores ficassem a saber mais sobre o estilo de vida, comportamento e relação de cada família com as redes sociais.

Os investigadores chegaram à conclusão que existiam vantagens e desvantagens no uso das redes sociais por parte das crianças. Por um lado, "percebeu-se que as redes sociais têm um efeito positivo no bem-estar das crianças e permite-lhes fazer coisas que elas gostam como de se manter em contacto com os amigos e estar ocupado", segundo o estudo. Mas, por outro lado, "tem um efeito negativo porque leva as crianças a preocuparem-se com coisas sobre as quais não têm qualquer controlo" como explica Anne Longfield ao dizer que "as redes sociais providenciam grandes benefícios, no entanto, também expõem as crianças a riscos emocionais muito significantes".

3 em cada 4 crianças com menos de 12 anos tem uma conta própria numa rede social apesar de a idade mínima de registo seja de 13 anos. O estudo descobriu também que as redes sociais mais utilizadas por esta faixa etária são o Snapchat, Instagram e Whatsapp. As crianças entre os 8 e os 10 anos ainda estão a descobrir como funcionam as redes sociais e por isso mesmo ainda não desenvolveram o hábito de verificar estas aplicações frequentemente. Nestas idades, os mais novos ainda acedem à internet a partir dos dispositivos móveis e das contas dos pais e admitem ter um tempo limite para usar as mesmas. Mas, os mais pequenos revelam que usam a internet para jogar com os amigos, explorar as surpresas das redes sociais - como os filtros - e ver vídeos para descobrir coisas para fazer.

Na faixa etária entre os 10 e os 12 anos o caso muda completamente de figura. Nestas idades as crianças já têm mais noção de como usar as redes sociais e começam a fazê-lo a partir dos seus próprios dispositivos móveis. Enquanto os mais novos apenas usam a internet depois da escola, neste grupo as crianças passam a usá-la quando querem mesmo durante o período escolar. É nesta idade que começam a sentir pressão social para usar as redes sociais com o objetivo de se tornarem populares e passam a dar mais importância aos 'gostos' e à aprovação social que estes trazem.


A comissária Longfield avisa os pais que "lá porque as crianças aprenderam algumas coisas sobre segurança na escola primária não significa que estejam preparadas para os desafios que as redes sociais apresentam" e acrescenta ainda que as escolas têm de se "certificar que as crianças estão preparadas para as exigências emocionais das redes sociais. O que significa que as companhias das redes sociais também têm de assumir uma maior responsabilidade". Anne Longfield acredita que se os pais, as escolas e as companhias não tomarem medidas, existe um grande risco de "deixar crescer uma geração de crianças que persegue 'gostos' para se sentir feliz e apenas se preocupa com a aparência e imagem devido ao estilo de vida irrealista que vê nas plataformas como o Instagram e Snapchat". Além disso Anne alerta ainda que isto tudo pode aumentar significativamente os estados de ansiedade nas crianças caso estas não consigam responder às exigências das redes.

O estudo inclui ainda frases das crianças inquiridas com o objetivo de alertar os pais para os pensamentos dos filhos. Harry tem 11 anos e diz que "se não usarmos coisas caras e de designer as pessoas gozam" mas "quando chegamos aos 50 'gostos' começamos a sentir-nos bem porque isso significa que as pessoas acham que ficámos bem naquela fotografia". Bridie, também com 11 anos, admite que usa as redes sociais cerca de 18 horas por dia e acrescenta ainda que "vi uma rapariga muito bonita e quero tudo o que ela tem, quem me dera ser como ela. Quero as coisas dela, a casa dela e a maquilhagem da MAC que ela tem. Vê-la faz me sentir aconchegada".

As redes sociais fazem com que as crianças criem uma ideia de um mundo irreal onde podem ter tudo aquilo que desejam. Para chegar a esse ponto, acreditam que têm de ser aceites no mundo social da internet e que os 'gostos' são o meio para ter a validação que tanto procuram. Para evitar este tipo de ilusões nas crianças, a investigação sugere algumas medidas para os pais como falar com as crianças sobre os aspetos positivos e negativos das redes sociais e fazê-las entender as diferenças entre a aparência e a realidade para tentar combater a pressão que as crianças colocam nelas próprias.

Esta pesquisa integra o relatório "Life in Likes" publicado hoje por Anne Longfield, comissária das crianças de Inglaterra - um cargo independente do Governo com o objetivo de ajudar a melhorar a vida das crianças a longo prazo, principalmente das mais vulneráveis.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Já há uma app que revela a desonestidade de um utilizador de telemóvel

KIRILL KUDRYAVTSEV


Artigo de Hugo Séneca para a Exame Informática, em 20 de abril de 2018.


Durante o projeto Veritaps, um conjunto de investigadores desenvolveu um algoritmo que permitiu apurar que a demora na interação com o ecrã do telemóvel pode ser indiciadora de desonestidades.

Na Universidade de Copenhaga, Dinamarca, há um projeto que promete desmontar algumas mais rebuscadas mentiras: um equipa de investigadores escandinavos anunciou o desenvolvimento de algoritmo que deteta a desonestidade de um utilizador pela forma como toca ou desliza os dedos para interagir com as diferentes funcionalidades do terminal.

O estudo que acaba de ser publicado tem por base uma tendência curiosa: num telemóvel, as ações que implicam algum tipo de desonestidade geralmente demoram mais que as outras ações, informa a Cnet.

Durante o projeto, conhecido por Veritaps, os investigadores submeteram vários voluntários a três tipos de testes: num dos testes, os utilizadores eram instados a mentir sobre cores que iam surgindo nos telemóveis; num segundo teste, cada pessoa tinha a possibilidade de mentir sobre uma compensação monetária que deveria ser dividida com outra; e no terceiro ensaio, os voluntários eram instados e premiados por mentir sobre os resultados alcançados num jogo de dados.

Nos dois primeiros testes, verificou-se que os utilizadores que enveredavam pela mentira costumavam demorar mais tempo a interagir com um toque ou um “swipe” nos ecrãs dos terminais. No terceiro teste, a tendência revelada incide sobre a localização e a intensidade: quando está a ser honesto, o utilizador tende a tocar no centro do ecrã e a usar mais força. Quando tenta ser desonesto, esse mesmo utilizador poderá ter a tendência de preferir os rebordos do ecrã.

Durante o projeto, os investigadores da Universidade de Copenhaga desenvolveram uma app que sinaliza a verde respostas consideradas como verdadeiras e a vermelho as reações que são potencialmente desonestas. A app também solicita mais informação aos utilizadores sempre que necessário.

A aplicação, que foi desenvolvida para dispositivos Android, não foi disponibilizada ao público, mas os mentores do projeto Veritaps, apesar de lembrarem que o algoritmo não é um detetor de mentiras, estão confiantes de que a tecnologia poderá ser útil em diferentes cenários. Deteção de desonestidades na venda de produtos online, fraudes em declarações de rendimentos, ou apenas situações em que o utilizador mente a si próprio quando olha para um compromisso assente na agenda são alguns dos exemplos dados.